Entrevistámos Maria Clara Fevereiro, Diretora do Arquivo Distrital de Castelo Branco.

(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse o seu percurso profissional, académico e docente, até chegar a Diretora do Arquivo Distrital de Castelo Branco, em 2007.

(Maria Clara Fevereiro) Possuo como habilitação académica/literária a licenciatura em História (1986) pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e o Curso de Especialização em Ciências Documentais/Opção Arquivo (1991), pela mesma Faculdade, complementada ao longo dos anos pela frequência de outros cursos dos quais destaco o Curso de Especialização em Gestão e Administração Pública,  o FORGEP – Programa de Formação em Gestão Pública, o  CADAP – Curso de Alta Direção em Administração Pública, Recursos Humanos e LVCR Igualdade de Oportunidades e de Género.

A minha iniciação no mundo laboral deu-se com a atividade docente, tendo de 1986-1988 lecionado em várias Escolas Secundárias; de 1989-1993 desempenhei funções no Arquivo Distrital de Castelo Branco; em 1994 ingressei, como técnica superior de arquivo no quadro da Câmara Municipal da Covilhã onde permaneci até 2000, ano em que regressei ao Arquivo Distrital integrando o seu quadro de pessoal como técnica superior de arquivo e desde 2007 assumi as funções de chefe de divisão.

Durante este percurso fui desenvolvendo outras atividades, para além das inerentes à carreira e ao cargo, tais como coordenadora Distrital – na área de Arquivo – no Projeto de Inventariação do Património Cultural Móvel,   orientadora de estágios curriculares e profissionais,  lecionei o módulo de “Arquivo” na E.T.E.P.A. – Castelo Branco e o módulo de “Direito para Arquivos” do curso de Ciências Documentais-variante Arquivo – no I.S.L.A. – Leiria, experiências que me enriqueceram pessoal e profissionalmente.

(ARCHIVOZ) Como mencionado, é Diretora do Arquivo Distrital de Castelo Branco, desde 2007. Que balanço faz do exercício deste cargo, considerando todos os desafios inerentes, desde logo o escasso número de colaboradores?

(MCFV) Atenta às difíceis condições pessoais em que assumi a direção do Arquivo, tem sido um desafio constante tentar manter os padrões de qualidade, de empenho, de profissionalismo dos que me antecederam no cargo, e honrar o legado de todos os que construíram o Nosso passado, esperando não os desrespeitar na forma como concretizamos o presente.

O aumento da disponibilidade e acesso à informação de arquivo, nomeadamente através da disponibilização de registos descritivos e imagens digitais da documentação à nossa guarda, impulsionados pelos meios tecnológicos/digitais que nos permitiram, através de novas ferramentas, chegar a um público mais diversificado e consequentemente mais exigente nas respostas expectáveis por parte do serviço.

O trabalho realizado tem privilegiado sobretudo o utilizador, e por isso o seu atendimento com qualidade; Uma qualidade que se pretende baseada num atendimento célere, produtivo e eficaz consubstanciado na resposta imediata, simplificada, completa, pelos profissionais do arquivo cuja forma e competência no servir tem proporcionado aos cidadãos que nos procuram um grau de satisfação frequentemente verbalizado ou escrito.

Os recursos humanos têm-se mantido estáveis ao longo deste período, a partilha de conhecimentos, a atualização e o desenvolvimento de competências em contexto de trabalho por parte dos funcionários tem permitido dar resposta aos desafios que os desenvolvimentos tecnológicos e sobretudo digitais nos têm trazido, com reflexo, quase imediato!, na reformulação/adaptação de procedimentos técnico-administrativos que possam contribuir para a desburocratização e desmaterialização de processos, a transparência e uma administração pública mais “verde”.

(ARCHIVOZ) O Arquivo Distrital de Castelo Branco é responsável por um vasto e rico acervo documental. Que fundos e coleções gostaria de destacar e quais os instrumentos de acesso à informação existentes, de forma a permitir a sua pesquisa e acesso?

(MCFV) Conforme refere, o Arquivo Distrital é detentor de um vasto acervo documental de tão diversificada natureza que não permite destacar uma em relação a outra.

A maioria da documentação em arquivo pertence – como aliás é natural num Arquivo Distrital! – aos grupos de arquivos: Judicial, Notarial e Paroquial, mas no nosso espólio também contamos com documentação proveniente do Governo Civil, da Assembleia Distrital, de Câmaras Municipais, de Administrações do Concelho, que chegaram até nós por via de incorporação, de protocolo, da figura do depósito, ou ainda, mercê do “silencioso” trabalho que envolve todos quantos se preocupam na salvaguarda do património documental.

O âmbito cronológico estende-se de meados do séc. XVI (1573-mais antigo documento em arquivo) até inícios do séc. XXI.

Poderei, no entanto, tendo por base a procura dos utilizadores, realçar os fundos paroquiais, notariais e judiciais pela importância que assumem junto do cidadão para a satisfação das suas necessidades legais, genealógicas, entre outras.

Salvaguardadas as restrições impostas legalmente ou por motivos de conservação das espécies documentais, o utilizador poderá aceder à informação remotamente através de pesquisa na base de dados de descrição arquivistica DigitArq https://digitarq.adctb.arquivos.pt/ ou de consulta na página eletrónica do Arquivo Distrital de Castelo Branco https://adctb.dglab.gov.pt/, onde será direcionado para a descrição do(s) fundo(s) na referida base de dados.

Optando pela consulta presencial (atualmente com as restrições derivadas da pandemia), na Sala de Leitura, o leitor terá acesso aos instrumentos de descrição em suporte papel e às obras existentes na biblioteca de apoio.

Todos os serviços de pesquisa, reprodução e acesso à documentação são efetuados através da plataforma CRAV – Consulta Real em Ambiente Virtual, que funciona como balcão eletrónico, mediante registo prévio do utilizador. Todos os procedimentos são efetuados dentro da plataforma, permitindo ao cidadão manter-se informado sobre o andamento do seu pedido.

(ARCHIVOZ) Em 2019 foi incorporado no espólio do Arquivo Distrital de Castelo Branco o manuscrito “Há de servir para em ele se lançarem as Receitas e Despesas da Fábrica Menor do Lugar de Alcongosta”. O que nos pode dizer sob este manuscrito e do interesse que tem gerado junto de investigadores?

(MCFV) Pertencente ao espólio da Biblioteca do Prof. Dr. José Hermano Saraiva; foi adquirido em 2018, em leilão, pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e entregue ao Arquivo em 29/03/2019.

Contém registos variados de receitas e despesas, de portarias e outros procedimentos eclesiásticos, de assentos das jóias em prata e ouro remetidas para o Seminário e para o Depósito Geral da Guarda, de emolumentos arrecadados na paróquia (de entre os quais donativos em dinheiro para as despesas do Exército Português) e enviados para o Depósito Geral do Fundão, e do inventário dos bens eclesiásticos que pertencem à igreja paroquial de Alcongosta.

Logo após a receção do manuscrito, este foi descrito arquivisticamente e juntamente com as suas imagens disponibilizado em linha ficando acessível ao público, não tivemos, até ao momento, retorno sobre o interesse gerado junto dos investigadores.

(ARCHIVOZ) Considerando a importância da difusão da informação, em qualquer serviço de informação arquivístico, particularmente tendo em conta o contexto de pandemia que nos encontramos a viver desde meados de março de 2020, pode dar-nos conta do que tem sido feito nessa matéria pelo Arquivo Distrital de Castelo Branco nos últimos anos?

(MCFV) Um dos principais objetivos do Arquivo é a difusão/divulgação da informação, só assim é possível que os utilizadores, estendendo-se por uma diáspora que não sendo apenas nacional tem por fronteiras o mundo em que vivemos, tenham conhecimento dos documentos que estão à nossa guarda, consciência do trabalho que realizamos e das iniciativas que promovemos e/ou participamos.

Para a concretização daquele objetivo tem sido essencial a disponibilização em linha dos registos descritivos e imagens digitais da documentação à nossa guarda.

Foi no ano de 2012 que iniciamos o processo de digitalização de documentação através do Projeto “Encontros e Desencontros: Movimentos Migratórios”, subsidiado pelo Programa ADAI (Apoyo al Desarrollo de Archivos Iberoamericanos), o projeto consistiu na higienização, acondicionamento, estudo orgânico-funcional, descrição (DigitArq), digitalização, integração e disponibilização em linha dos registos de passaportes e registos de vistos de passaportes do Fundo do Governo Civil de Castelo Branco; foi também durante este ano que se iniciou a digitalização e disponibilização em linha dos registos paroquiais existentes neste Arquivo realizada no âmbito do protocolo celebrado com a Family Search.

Como contributo para a iniciativa do Conselho Intergovernamental de Iberoarquivos que declarou “2019 – Ano Iberoamericano dos Arquivos para a Transparência e Memória”, durante os anos de 2019-2020 o Arquivo digitalizou e disponibilizou as imagens dos “Processos de Pedidos de Passaportes” do Fundo do Governo Civil de Castelo Branco.

Neste momento o Arquivo tem disponibilizadas cerca de 430.000 imagens de documentação pertencente a vários fundos, entre os quais: Paroquiais, Notariais, Governo Civil de Castelo Branco, Câmaras Municipais, Administrações do concelho.

A divulgação dos serviços tem também sido feita através de visitas de estudo; exposições nomeadamente no âmbito de iniciativas como: “Dia Aberto no Arquivo”, “Jornadas Europeias do Património”, “Dia Internacional dos Arquivos”, “Dia Nacional dos Bens Culturais da Igreja”; participação em colóquios, congressos, encontros; entre outras.

Temos também aproveitado as valências da nossa página eletrónica (https://adctb.dglab.gov.pt/) para noticiar informação sobre iniciativas do Arquivo, sobre fundos documentais e a publicação/divulgação periódica em “Documento em Destaque” de documentos relacionados com efemérides ou tão simplesmente pela curiosidade do seu conteúdo.

Do trabalho realizado temos obtido algum retorno, positivo!, dos nossos utilizadores, quer através das respostas aos inquéritos disponibilizados na página do Arquivo e presencialmente na Sala de Leitura quer no contacto pessoal.

Para o bem e para o mal! Todos estamos hoje a uma distância que deixou de se medir em quilómetros para o passar a ser em tempo; um tempo que quase não tem medida, encurtadas que estão acessibilidades e distâncias pelos meios de comunicação e pela internet.

Em tempos de pandemia não foi possível efetuar algumas destas atividades, no entanto através dos meios digitais foi sempre possível ao cidadão aceder à informação e obter respostas por parte do serviço durante os períodos em que a sua deslocação física ao Arquivo não era permitida.

(ARCHIVOZ) Tendo em conta o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que, desde há mais de um ano, alteraram profundamente a vida dos arquivos, o que nos pode dizer sobre as estratégias desenvolvidas no Arquivo Distrital de Castelo Branco de forma a enfrentar esta nova realidade, no que respeita à organização do trabalho interno, do atendimento aos utilizadores e na difusão da informação?

(MCFV) A COVID-19 trouxe-nos desafios a vários níveis: saúde, social, pessoal, profissional, entre outros; Tudo diferente! distanciamento, confinamento e isolamento sociais; etiqueta respiratória; higienização pessoal e de espaços, máscaras, luvas, gel desinfetante; planos de contingência; encerramento dos serviços; teletrabalho; etc. De repente, fomos “obrigados” a olhar, a perspetivar e a vivenciar de formas totalmente diferentes a realidade até ali tão segura… mas! lá nos esforçámos e tentámos encarar da “melhor maneira” as alterações que nos eram exigidas, enfim! fazermos a nossa parte.

Houve a necessidade de reorganizar os serviços a vários níveis, seguindo as recomendações e/ou orientações superiores e da autoridade de saúde, definindo percursos de circulação, adaptando postos de trabalho, redimensionando a capacidade da Sala de Leitura, adotando novos métodos de trabalho interno e externo, tendo-se recorrido em alguns períodos ao teletrabalho e/ou ao agendamento prévio.

Durante este período foi possível, mesmo nas ocasiões em que estivemos em teletrabalho, através dos meios tecnológicos e ferramentas digitais que temos à disposição, realçando o Balcão eletrónico (CRAV), continuar a dar resposta aos pedidos dos utilizadores e garantir a execução de algumas tarefas por parte dos colaboradores.

Neste contexto de incerteza, que tem colocado à prova a nossa capacidade de criar novas e diferentes formas de olhar e vivenciar cada dia, quer a nível pessoal como profissional, sendo que os dois se entrelaçam, só a interajuda de todos os colaboradores do Arquivo e a compreensão e incentivo dos utilizadores tem permitido tornar mais “normal” toda esta “anormalidade”!

(ARCHIVOZ) Quais os principais projetos que se encontram em curso e os que estão planeados no decurso de 2021 no Arquivo Distrital de Castelo Branco?

(MCFV) Como serviço público, o nosso principal objetivo/projeto continuará a ser garantir um desempenho que satisfaça as exigências do cidadão que nos procura através da prestação de serviços com qualidade, responsabilização e acolhimento no serviço Público, do rigor e da transparência, da valorização pessoal, do trabalho em equipa e da competência, atendendo aos princípios da ética, da moral e da vontade própria/individual.

Derivando dos objetivos acordados superiormente para o Arquivo, que se prolongam no tempo, os projetos de descrição e digitalização que temos a decorrer têm como objetivo o aumento da disponibilidade e acesso à informação de arquivo, nomeadamente através da disponibilização em linha de registos descritivos e de imagens digitais da documentação à guarda do Arquivo.

Continuaremos a apostar no apoio técnico a entidades do distrito para a salvaguarda do património arquivístico e na implementação e/ou gestão de sistemas de arquivo e na cooperação com outros arquivos do distrito.

(ARCHIVOZ) Finalmente, quais pensa serem os grandes desafios e oportunidades com que os profissionais da informação e os serviços de informação arquivística se deparam na atualidade.

(MCFV) Os arquivos, em si mesmos, são orgânicos, refletindo por isso as diversas atividades e interações de instituições, de particulares e entre ambos; neste contexto, como tem acontecido ao longo dos séculos, aos profissionais de arquivo colocar-se-á o desafio de responder às “novas” formas de interagir, diretamente relacionadas com a exponencial proliferação de informação digitalizada (em substituição do papel) e/ou nado-digital, sendo que, na minha opinião esta resposta terá que ser multidisciplinar.

Continua a ser uma necessidade dotar as instituições de instalações, de equipamentos e de profissionais de arquivo no sentido de garantir condições para a melhor conservação, organização e gestão documental desde a produção ao destino final. Será também importante sensibilizar os cidadãos para a importância dos arquivos e torná-los parceiros neste processo. Só uma gestão profissional dos arquivos permitirá conservar o passado, preservar o presente e não comprometer o futuro.

Cabe por isso decidir o que pretendemos para os “nossos” arquivos!

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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