Entrevistamos Maria do Rosário Morujão historiadora e professora Auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se doutorou em História da Idade Média.

(Archivoz) A carreira de historiadora é indissociável da pesquisa em arquivos. No seu vasto percurso como vê a evolução dos arquivos em Portugal?

(Maria do Rosário Morujão) Não há comparação possível entre a situação que conheci no início da minha carreira e a actual. Comecei a frequentar arquivos no final dos anos 80, quando a Torre do Tombo estava ainda em S. Bento e os leitores não cabiam na sala de leitura; os arquivos municipais eram, na sua maioria, inexistentes, os catálogos e inventários eram em número ainda mais reduzido do que são hoje, não havia digitalizações, muito menos documentos reproduzidos online. Progrediu-se imenso nas últimas décadas, em especial já neste século, e com os avanços que as novas tecnologias permitiram alcançar. Mas ainda há muito a fazer, nomeadamente no que toca aos instrumentos de descrição, tão importantes para os investigadores, e na conservação e restauro, nomeadamente dos selos que autenticam os documentos.

(Archivoz) Nos últimos anos as disciplinas de paleografia e diplomática tornaram-se praticamente residuais ou inexistentes nos curricula das universidades. Faz sentido este desvanecimento ou não?

(MRM) Não faz qualquer sentido, e estou convicta de que iremos pagar caro por essa ausência, que se faz sentir tanto nos cursos de História como nos de Ciência da Informação. Não concebo arquivistas ou bibliotecários que nunca tenham contactado com documentos e livros antigos, que não tenham noções de paleografia, diplomática, codicologia, história do livro. Não é apenas a capacidade de ler os documentos medievais, modernos ou até mesmo contemporâneos que deste modo se perde – perdem-se todas as outras aprendizagens acerca da escrita, da concepção e redacção de um acto escrito, da forma como um livro manuscrito era elaborado, desde a escolha e preparação do suporte até ao resultado final.

Também não concebo que um historiador que se dedique a séculos anteriores ao século XIX não possua sólidos conhecimentos paleográficos. Como é que acede às fontes, se não os tiver?

Na Universidade de Coimbra, existe de momento apenas uma cadeira de Paleografia e Diplomática, não obrigatória. Alegra-me verificar que, todos os anos, o número de alunos que escolhe esta unidade curricular é elevado, demonstrando como os próprios estudantes reconhecem a sua importância.

(Archivoz) Nos últimos anos tem-se dedicado ao Projecto SIGILLVM PORTVGALIAE (Corpus de selos portugueses). Pode-nos explicar em que consiste?

(MRM) Este projecto, como o nome indica, visa a construção de um corpus dos selos usados em Portugal durante o Antigo Regime. Começou em 2014, com financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian e o apoio do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, onde se encontrava sediado, dirigindo-se então apenas aos selos do clero secular medieval português. Finda essa etapa, e apesar da ausência de novo financiamento, temos continuado a trabalhar, alargando o âmbito do projecto, tanto no que toca à cronologia como ao universo sigilográfico abrangido. O seu objectivo principal é fazer um levantamento sistemático dos selos que existem nos arquivos, bibliotecas e museus portugueses (e dos selos portugueses que existem no estrangeiro), e sempre que possível também nas mãos de particulares, para criar uma base de dados disponível online (quem estiver interessado encontra mais informações e o acesso à base de dados em http://portugal-sigillvm.net/). Só assim se conhecerá a realidade sigilográfica portuguesa, que os dados já recolhidos apontam ser alarmante: mais de 50% dos selos do clero secular inventariados não existem mais, e a maioria dos que subsistem não estão em bom estado. Podemos afirmar, sem qualquer exagero, que os selos são um património cultural em risco que necessita com urgência de salvaguarda. Pretendemos, por isso, também, desenvolver os cuidados com a conservação e restauro dos selos, áreas nas quais Portugal não tem conservadores-restauradores especializados.

(Archivoz) A sigilografia também é uma área a que se tem dedicado. Na sua perspectiva qual o panorama português e europeu em relação a esta disciplina?

(MRM) Trata-se de uma disciplina em pleno crescimento, embora continue sempre como um nicho de investigação a que se dedica um número reduzido de pessoas, tanto em Portugal como por toda a Europa. A sigilografia conheceu desde as últimas décadas do século XX uma grande renovação, iniciada pelo conhecido historiador francês Michel Pastoureau. Nos últimos anos, os selos têm sido tema de grandes exposições, de reuniões científicas multidisciplinares e de projectos de investigação, mostrando como o reconhecimento da sua importância enquanto testemunho do passado está a aumentar. E, de facto, vemos os selos a ser cada vez mais estudados nas suas múltiplas vertentes, tanto a diplomática como a iconográfica, a simbólica, a heráldica, a artística, a técnica. Estuda-se a concepção do poder de reis, rainhas, senhores a partir dos seus selos. Analisam-se os selos enquanto símbolos de identidade, tanto de indivíduos como de grupos sociais. Fazem-se investigações acerca do vestuário, dos paramentos, do armamento neles representados, ou acerca da evolução dos navios, tantas vezes utilizados na iconografia sigilar que se fala mesmo de selos de tipo náutico. Há neste momento um projecto internacional fascinante na área da biologia acerca das abelhas e da sua evolução ao longo dos séculos, que tem na cera dos selos uma fonte essencial; e terminou há pouco um outro que estuda as impressões digitais preservadas nos selos, no qual colaboraram especialistas forenses e medievalistas. Os selos também podem contribuir para a história dos têxteis e dos pigmentos usados para tingir, já que grande parte deles tem suspensões têxteis que são testemunhos datados com precisão da produção de tecidos coeva, que eram com frequência tingidos, tal como sucedia com a própria cera. Há um manancial imenso de possibilidades de investigação em torno dos selos que se está a desenvolver cada vez mais.

(Archivoz)  Agora, uma provocação: os arquivos têm interesse ou consciência da importância da salvaguarda dos selos contidos na documentação?

(MRM) Diria que têm uma consciência crescente dessa importância, em boa medida graças ao projecto SIGILLVM e à sensibilização para a necessidade da sua salvaguarda que temos levado a cabo. Todos os arquivos que contactámos para serem objecto do nosso projecto aderiram a ele com entusiasmo. Nota-se, também, que passou a haver outro cuidado com a conservação preventiva dos selos e até com algumas operações básicas de restauro. Também passaram a reproduzi-los com qualidade ao fazer digitalizações dos documentos, o que antes do projecto se iniciar não sucedia. Existe um forte interesse, por exemplo, em que seja organizado um curso de conservação e restauro de selos, leccionado por especialistas estrangeiros (faltou-nos até agora o financiamento para levar a cabo esta iniciativa, mas penso que em breve será possível concretizar). Para além dos arquivos, existe também interesse por parte de particulares, que entram em contacto conosco por possuírem matrizes sigilares que gostariam de ver identificadas, o que permite aumentar o universo das matrizes conhecidas, que constituem uma vertente da sigilografia ainda relativamente pouco explorada entre nós.

(Archivoz)  Em relação aos seus projectos futuros que sempre envolvem os arquivos, pode revelar algumas das suas perspectivas futuras de investigação?

(MRM) Nos próximos tempos conto continuar a trabalhar nas minhas áreas de eleição: o clero secular, nomeadamente o da Sé de Coimbra medieval, alargando as investigações que serviram de base ao meu doutoramento; Cister feminino, em especial o mosteiro de Celas, tema da minha dissertação de mestrado ao qual regresso com regularidade; a diplomática e a edição de documentos; os selos, que deixei para o final fazendo jus ao provérbio que diz que os últimos serão os primeiros. Os selos não são apenas um tema de estudo, tornaram-se uma verdadeira paixão que pretendo continuar a cultivar.


Entrevista realizada por: Alexandra Maria Silva Vidal

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