Entrevistámos David Felismino, Diretor-adjunto do Museu de Lisboa (EGEAC).
(ARCHIVOZ) Não poderia deixar de começar por destacar o seu notável percurso como investigador e curador. Fale-nos um pouco do seu trajeto formativo e profissional, até chegar às funções que desempenha atualmente, como Diretor-adjunto do Museu de Lisboa, bem como os seus principais domínios científicos e interesses nesta área.
(David Felismino) Sou historiador de formação e iniciei o meu percurso profissional, em 2002, como investigador júnior associado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, dedicado a vários projetos que articulam a história social das elites com a história do antigo império português, e essas temáticas com a história institucional da monarquia portuguesa e com a história política da mesma. Todavia a partir de 2004, cada vez mais atento à cultura material e como os objetos têm um sentido histórico e documental, possibilitando novas leituras sobre as sociedades, o meu percurso orientou-se, naturalmente, para o mundo dos museus e das coleções, em particular, do património científico e técnico. De 2004 a 2009, trabalhei na Casa Fronteira e Alorna e no Museu Geológico de Lisboa. De 2009 a 2016, fui curador no Museu de História Natural e da Ciência, tendo-me dedicado à preservação e estudo de coleções associadas à prática e ao ensino das ciências em Lisboa entre os séculos XVI e XIX, nomeadamente da botânica, da física e da medicina. Em 2016, abracei o projeto do Museu da Saúde, tendo sido responsável pelo desenho do projeto museológico deste último. Desde 2020, sou Diretor-adjunto do Museu de Lisboa (EGEAC) e membro da atual direção da Comissão Nacional Portuguesa do ICOM.
(ARCHIVOZ) Como salientado, é Diretor-adjunto do Museu de Lisboa desde janeiro 2020. Que balanço faz do exercício deste cargo?
(DF) Integrei a equipa do Museu de Lisboa num momento muito peculiar, coincidente com o início da pandemia de Covid-19, o primeiro confinamento total em Portugal (março a maio 2020), o fecho do Museu e a obrigatoriedade do teletrabalho da equipa, o que veio aumentar ainda mais os desafios. Todavia, o balanço é positivo, tendo a direção do Museu, composta por Joana Sousa Monteiro e por mim, conseguido adaptar-se a esta nova realidade, no que diz respeito à programação expositiva, educativa e cultural, nomeadamente na esfera digital, à necessidade de captação e fidelização de novos públicos face à redução abrupta do turismo em Lisboa, bem como à criação de novas estratégias de gestão, organização e motivação da equipa, quer do ponto de vista organizacional, quer do ponto de vista humano.
(ARCHIVOZ) Gostaria que nos apresentasse o Museu de Lisboa, no que respeita aos núcleos que o compõem, à sua história, vocação e missão, para além de qualquer outro aspeto que considere relevante para o seu melhor conhecimento.
(DF) O Museu de Lisboa é um museu de cidade polinucleado, formado por cinco espaços onde se pode descobrir Lisboa e as suas histórias em diferentes épocas. Com valências e objetivos complementares, são estes: o Palácio Pimenta – núcleo sede do Museu –, o Teatro Romano, o Santo António, o Núcleo Arqueológico da Casa dos Bicos e o Torreão Poente da Praça do Comércio. Partilham uma identidade e uma missão: revelar Lisboa de diferentes formas, para dar a conhecer a riqueza de uma das cidades mais antigas da Europa. As Galerias Romanas da Rua da Prata também são geridas pelo Museu de Lisboa. Localizadas no subsolo da Baixa Pombalina, abrem habitualmente ao público duas vezes por ano.
A estrutura polinucleada e a designação de Museu de Lisboa surgiram em 2015, no âmbito da reformulação do antigo Museu da Cidade e da reorganização das próprias estruturas de gestão dos museus municipais de Lisboa, iniciada em 2010. Nessa altura, definiu-se a associação de vários espaços museológicos pré-existentes, atentos à sua vocação abrangente e à complementaridade dos patrimónios, móveis e imóveis, associados a cada núcleo. A mudança de nome preconizou um novo conceito. Se antes existia um museu de história, o museu passou a afirmar-se como sendo de cidade, ou seja, com maiores responsabilidades na representação do contexto geográfico, social, político e mental da cidade. Não se trata apenas da história da cidade, mas também do presente, dando pistas para o futuro. Em simultâneo, iniciou-se um profundo processo de renovação destes espaços museológicos.
O Museu da Cidade, constituído formalmente em 1909, estava instalado, desde 1979, no Palácio Pimenta, uma quinta de veraneio setecentista, adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa em 1962 para o efeito. Em 2021, depois de um período de quatro anos de renovação, reabriu a primeira parte da sua exposição de longa duração, Viagem ao Interior da Cidade. Esta exposição, apesar do espaço exíguo disponível nas pequenas salas do Palácio Pimenta, conta momentos da longa e fascinante história de Lisboa, desde a pré-história até perto dos nossos dias, assumindo que se trata de destaques da história da cidade, organizados de forma cronológica, desvendando diferentes etapas do desenvolvimento urbano e da ocupação do território, complementados por aspetos da vida quotidiana, importantes marcos arquitetónicos e testemunhos patrimoniais diversos. Em 2014, o Museu Antoniano (inaugurado em 1962) deu lugar ao Museu de Santo António, entretanto reprogramado e totalmente transformado, reabrindo ao público numa versão ampliada e modernizada. Em 2015, o Museu do Teatro Romano (aberto desde 2001), reabriu com uma exposição renovada, com alargamento das coleções expostas e novas soluções museográficas, para além da melhoria considerável das acessibilidades físicas. Também o sítio arqueológico foi objeto de valorização em termos da sua conservação e da abordagem ao público. Adicionalmente, entre 2013 e 2014, decorreram investimentos em outros dois espaços, que por razões diferentes se tornaram no quarto e no quinto núcleos do Museu de Lisboa: o Núcleo Arqueológico da Casa dos Bicos e o Torreão Poente da Praça do Comércio. Localizado no piso térreo do edifício atualmente cedido à Fundação Saramago, o Núcleo Arqueológico, embora de pequena dimensão, apresenta elementos de particular relevância para os períodos romano e moderno da história de Lisboa. Por fim, o Torreão Poente da Praça do Comércio, cujos espaços tinham ficado devolutos após a saída dos serviços do Exército que lá estiveram instalados nas últimas décadas. Este espaço foi utilizado como área de exposições temporárias entre 2013 e 2020, quando fechou, durante um prazo sensivelmente de dois anos, para obras de renovação e adaptação.
(ARCHIVOZ) O Museu de Lisboa tem à sua responsabilidade um notável acervo. Quais são as principais coleções que integra e os instrumentos de acesso à informação, com vista à comunicação dos mesmos? O que o distingue dos outros museus?
(DF) O Museu de Lisboa possui um acervo variado, heterogéneo e de apreciável dimensão, composto por cerca de 100.000 peças, organizado em perto de 50 coleções de distintas tipologias, em permanente atualização por via de incorporações regulares, por doação ou aquisição. É um acervo de referência para a história de Lisboa, que documenta as transformações urbanísticas e as muitas formas como diferentes olhares captaram a essência da cidade e os múltiplos aspetos da sua vivência.
De particular importância são os núcleos associados ao Terramoto de 1755, ao estatuto de Lisboa como cidade produtora de azulejaria barroca a nível mundial, ou às grandes transformações da cidade registadas entre os séculos XIX e XX. Assim, podemos destacar, entre muitas, três importantes coleções: os azulejos, as maquetas e a arqueologia, esta última fundadora do Museu.
O Museu detém a segunda mais importante coleção de azulejaria do país. Resulta, sobretudo, das alterações ao património edificado da cidade verificadas no século XX, e ilustra a importância de Lisboa como principal centro produtor de azulejaria da história de Portugal. A coleção percorre praticamente todos os períodos históricos, da azulejaria mudéjar de finais da Idade Média até aos revestimentos contemporâneos das últimas décadas.
Nas coleções do Museu de Lisboa, as maquetas são em número reduzido, mas representam um núcleo essencial para a história da cidade e do próprio museu. Para além da grande maqueta de Lisboa anterior ao terramoto de 1755, concebida pelo olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira (1880-1962), o museu integra reconstituições de emblemáticos edifícios de Lisboa (antigo Convento do Carmo, igreja de Santo António, ou Teatro Romano), uma maqueta inacabada da Baixa Pombalina – executada pelo bombeiro Luís Caetano de Carvalho (1863-1933) – e o núcleo de maquetas da Expo ’98.
O Museu de Lisboa integra ainda as coleções arqueológicas do Teatro Romano e da Casa dos Bicos, com testemunhos que recuam até à proto-História (séc. VI a.C.), além de parte das coleções do antigo Hospital Real de Todos-os-Santos (1504-1775), entre outras intervenções um pouco por toda a cidade. A nova exposição de longa duração do Museu de Lisboa, Viagem ao Interior da Cidade, ilustra a riqueza arqueológica de uma cidade que se construiu sobre outras cidades anteriores e o dinamismo próprio da arqueologia urbana em Lisboa.
Para além disso, inclui o mais rico acervo dedicado ao santo lisboeta de maior dimensão mundial e devoção popular: Santo António.
A coleção encontra-se inventariada no sistema de gestão de património cultural InPatrimonium da Sistemas do Futuro, obedecendo aos mais atualizados padrões internacionais de documentação e gestão de coleções. Nos últimos anos, o Serviço de Investigação e Inventário tem feito um trabalho colossal de revisão e aumento dos conteúdos do inventário do acervo. À data, cerca de 50% da coleção encontra-se devidamente estudada e inventariada. Perto de 7000 objetos encontram-se disponíveis para consulta do público, no módulo web do InPatrimonium, acessível a todos a partir do site do Museu. À margem do inventário, de destacar ainda a edição de catálogos e de monografias sobre coleções específicas do Museu, entre os quais, Testemunhos da Escravatura. A Memória Africana no Museu de Lisboa (de investigadores do Museu, 2017), O Couro Lavrado no Museu de Lisboa (de Luis Guerra e Franklin Pereira, 2018), Devoção e Fé – Registos em Azulejo na Cidade de Lisboa (Margarida Almeida Bastos e Fernando Peixoto Lopes, 2019).
(ARCHIVOZ) E no que respeita à abertura do Museu de Lisboa à comunidade, quais as atividades desenvolvidas de forma a alcançar esse objetivo?
(DF) Na área da mediação cultural, têm sido envidados esforços de atualização e intensificação de atividades, não só no sentido do aumento da oferta de eventos, mas antes com foco na relevância de conteúdos e de formatos, diversificando abordagens a diferentes públicos e privilegiando projetos de proximidade e continuidade com parceiros locais: associações, agrupamentos específicos de escolas, juntas de freguesia, entre muitos. De destacar, por exemplo, o projeto de reconstituição teatral, em parceria com o grupo de teatro “Nós por Todos”, com utentes da APPACDM que já leva quatro anos, ou ainda os projetos “Lisboa Revela-se”, desenvolvido em estreita colaboração entre o Serviço Educativo do Museu e a fisioterapeuta Graça Lucena, que associa a recuperação do parto à experiência patrimonial e cultural, e o projeto “Marcar o Lugar”, desenvolvido com a Associação Alzheimer Portugal, que, tendo por base os acervos museológicos e os temas abordados nas exposições, pretende reativar memórias através da construção de narrativas individuais e coletivas.
Outra forma de abertura à comunidade tem sido os projetos expositivos desenvolvidos, que procuram ir ao encontro das preocupações contemporâneas das comunidades com o intuito de intensificar os laços de pertença e de empatia entre os habitantes da cidade, o território urbano e o Museu. Nestes projetos, estão ainda presentes preocupações de relação interativa e de cocriação. Abrimos caminhos a tópicos tais como as migrações, a sustentabilidade, as hortas urbanas e a alimentação, de entre uma pluralidade de temas. Destacam-se as exposições Convivência(s). Lisboa Plural (2019) que revelou o papel das minorias religiosas e dos residentes estrangeiros na construção da imagem de Lisboa, entre a Idade Média e a 1.ª República, e Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao século XXI (2020) que a partir dos desafios da soberania, segurança e sustentabilidade alimentar das cidades, perspetiva o futuro através das mais recentes técnicas à nossa disposição para construir e manter uma horta urbana, resiliente e sustentável. A construção desta exposição assentou ainda numa extensa pesquisa etnográfica que revela a diversidade atual de hortelãos da cidade, revelando ainda sentidos de pertença, práticas, narrativas e redes de entreajuda que refletem diferentes origens e percursos migratórios e sublinham a multiculturalidade secular de Lisboa
Finalmente, têm-se intensificado os percursos orientados e temáticos pela cidade para ajudar a compreender como esta foi construída e vivida, revelando novos territórios e novos aspetos do património arquitetónico, artístico e urbanístico das múltiplas “cidades” que habitam Lisboa, bem como abordando temas, tradicionalmente “invisíveis”, como a presença dos escravos, das comunidades judaicas e LGBTI na cidade, entre outros, procurando sublinhar o multiculturalismo e multiconfessionalismo que sempre caracterizaram as populações lisboetas.
(ARCHIVOZ) Um tema incontornável, desde meados de março de 2019, e que, infelizmente, continua na ordem do dia, é o novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19. Como Diretor-adjunto do Museu de Lisboa, quais têm sido os grandes desafios que tem enfrentado, ao nível da organização do trabalho interno, do atendimento ao público e da difusão da informação? Que estratégias foram desenvolvidas para mitigar o impacto desta conjuntura tão adversa?
(DF) Além de todos os aspetos relacionados com o rigoroso cumprimento das regras sanitárias vigentes, em acordo com a legislação nacional em vigor, com consequências na gestão das equipas, na organização do trabalho, na disponibilização do património, seja em exposições, seja em atividades de mediação, na participação do público, o principal desafio tem sido a transição, eficaz e eficiente, para o digital.
O primeiro confinamento, com o fecho abrupto e inesperado do Museu e o consequente desaparecimento da dimensão física e presencial, compeliu-nos a transformar, súbito e radicalmente, a nossa atividade, adaptando-a para o mundo digital. O Museu de Lisboa apostou em visitas guiadas, palestras, minidocumentários, atividades educativas e jogos que disponibilizou diariamente através das suas redes sociais – Facebook, Instagram e canal de YouTube. Com este objetivo, todas as equipas do Museu foram mobilizadas (comunicação, historiadores, arqueólogos e outros investigadores, responsáveis pelo inventário e pela gestão de coleções, técnicos de conservação, técnicos de serviço educativo, entre outros) para a criação de uma programação online e sua comunicação com os públicos através das redes sociais, continuando a potenciar conhecimento sobre Lisboa e empatia com a mesma. Foi possível observar como as funções de investigação, curadoria e mediação cultural foram ressignificadas pelo digital, entrelaçando-se entre si.
Passado este momento de emergência, que se repetiu com o segundo confinamento, entre janeiro e abril 2021, o Museu assumiu, definitivamente, esta nova forma de comunicação e mediação. Não se trata apenas de ter uma página na web, de interagir com públicos nas redes sociais, ou de usar dispositivos tecnológicos nas exposições. Trata-se antes de pensar sobre como proporcionar e ativar experiências, com tecnologias digitais, que estejam incorporadas à rotina das pessoas, sendo por elas percebidas como relevantes. Trata-se de estimular novas formas de participação e de interlocução, de conseguir incorporar atores sociais diversos, com diversas vivências e realidades.
(ARCHIVOZ) Tendo em conta a notável dinâmica que carateriza o Museu de Lisboa, quais os principais projetos e atividades que se encontram em curso e os que estão planeados para 2022?
(DF) O planeamento das exposições e das atividades em 2022 parte do pressuposto de que a pandemia de COVID-19 já terá dado lugar ao retorno a uma vivência mais próxima dos padrões anteriores, sendo, no entanto, ainda conservadora em termos quantitativos. Estão planeadas várias novas exposições, entre as quais, uma dedicada aos lazeres em Lisboa (cinema, teatro, clubs, desporto, entre muitos) durante os Loucos Anos 20. Iremos ainda assinalar o bicentenário da morte do escultor setecentista Joaquim Machado de Castro. Estão ainda pensadas novas exposições temporárias no Santo António e no Teatro Romano, com o objetivo de dar a conhecer património pouco conhecido, associado a estes núcleos. Outro objetivo será intensificar a diversificação de conteúdos e de formatos das atividades educativas e culturais, bem como a intensificação dos projetos proximidade e continuidade com parceiros locais.
(ARCHIVOZ) Para terminar, quais é que pensa que são os grandes desafios que os museus portugueses, e os respetivos profissionais, têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e divulgação das respetivas coleções e acervos?
(DF) Cada momento enfrenta o seu desafio e o contexto atual exige dos museus particular ambição e arrojo, convidando a pensar o futuro dos museus e o seu papel nas nossas sociedades. Creio que são quatro os principais grandes desafios, transversais a diferentes realidades, universais na sua atualidade: a transformação digital, a sustentabilidade, o ambiente e a implementação de novos modelos de gestão. Os últimos meses marcaram tudo e todos de forma indelével e mudanças que se insinuavam antes da pandemia, afirmaram-se definitivamente, designadamente o recurso a ferramentas digitais e a implementação de modelos de gestão mais bem preparados para lidar com situações inesperadas. Regressar à fruição individual, passiva, característica do museu oitocentista, requalificada através de uma versão tecnologicamente atualizada, mas ainda mais individual, não será a solução. Simultaneamente, estes mesmos desenvolvimentos propiciam o avolumar das desigualdades e exigem que sejam pensadas e implementadas estratégias para salvaguardar a herança cultural e natural. Enquanto motores de mudança, os museus devem ainda contribuir para promover o intercâmbio cultural, criando pontes e laços entre os povos. A sua capacidade de enfrentar desafios e servir a sociedade terá necessariamente de assentar no reforço de estratégias de interligação com as comunidades em que estão inseridos e na aposta de pertença a redes de dimensão e geografia variáveis.
Imagem cedida pelo entrevistado: Grande Maqueta de Lisboa antes do Terramoto de 1755 – Museu de Lisboa – Exposição de longa duração Viagem ao Interior da Cidade (fotografia: José Avelar – Museu de Lisboa)
Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista