Tem sido recorrente por parte das instituições culturais a realização de projetos e ou campanhas de aquisição de objetos que estão sendo produzidos nesse momento de crise pandêmica(1). Na maioria das vezes são coletados documentos de particulares, testemunhos escritos, fotográficos e orais, os quais formarão coleções dentro das instituições arquivísticas. Ainda que positivas essas ações, devemos refletir a respeito para que no futuro tenhamos um acervo representativo de um período, infelizmente, catastrófico de nossa história.
Segundo Nora (1993, p.21-2), podemos compreender as instituições culturais como ‘lugares de memória’, cujas práticas de colecionismo, preservação e difusão estão imbuídas de significados que não são somente técnicos, mas sim culturais, sociais e políticos (2). O sujeito tem a chance de voltar para um lugar que tem a sabedoria recolhida e de resgatar vozes do passado no ato da consulta aos documentos (Manguel, 1998. p.76) (3).
A crítica realizada de como se chega a essa valoração de que um artefato é um exemplar que remete ao passado pode lançar luz à forma como documentos são alçados a “relíquias” (Lowenthal, 1995) e ou a “monumentos históricos” (Choay, 2000). Igualmente possibilitar a reflexão a respeito das políticas de aquisição de acervo e difusão cultural praticadas por instituições arquivísticas. Existe um elo estreito entre o que escolhemos para preservar e o que escolhemos para tornar público e evidente.
Enquanto “relíquias” (4), o autor Lowenthal (1995) salienta que nenhum objeto e ou vestígio físico são guias autônomos para épocas remotas. Na verdade, esses objetos só fazem sentido quando repensados dentro de um conjunto de informações contextuais e residuais que temos a respeito deles. Por outro lado, esta operação de seleção de um vestígio faz parecer que todo o ‘resto’ – o que não foi selecionado – não tenha vínculo com o passado, com o presente e com o futuro.
Paradoxalmente pode ocorrer também que os artefatos eleitos como “relíquia” percam esse atributo com a ação do próprio tempo presente, o que o autor chamou de “convivência cotidiana com estes artefatos” (LOWENTHAL, 1995. p.238. trad. livre). Ou seja, as relíquias sucumbem ao desgaste de significados como também de importância para a comunidade.
A operação refletida por Lowenthal (5) lança luz à maneira como os profissionais pertencentes a área de patrimônio e cultura elegem dentre as fontes disponíveis o material a ser moldado para transmitir o conhecimento sobre o passado. Ainda que busque rigor metodológico, não existe a possibilidade de eleger objetos representativos de um passado sem que introduzamos pensamentos e valores do presente. As fontes deixadas e ou tornadas relíquias por políticas de grupos, assim como o próprio discurso histórico, podem também estar atreladas a certos interesses.
Enquanto “monumento”, Choay (2000) distingue duas naturezas desse tipo de artefato, o monumento (6) e o monumento histórico. Detendo-nos sobre o monumento histórico, este é oriundo de práticas de valorização e conservação de bens que já existem espalhados pela comunidade, os quais devem ter alguns requisitos para que recebam a categorização de monumento. Neste último caso, a autora diz que todo objeto do passado pode ser convertido em testemunho histórico sem ter tido por isso na sua origem destino memorial, ou seja, todo artefato deliberadamente pode ser investido de função de memória. Igualmente qualquer objeto do passado, ainda que convertido, pode ser destruído também.
Portanto, partindo desses prismas teóricos, ainda que pouco explorados neste ensaio, quando as instituições arquivísticas, e assim também bibliotecas e museus, se reconhecem como participantes do processo de definição da memória social, passam a compreender que seu trabalho não é somente “técnico” ou calcado numa única área de saber, mas é também político e multidisciplinar. Para tanto, se faz necessário compreender os condicionantes sociais e culturais que levam à produção e à acumulação de uma infinita gama de registros e ao questionamento sobre o que se preservar e o que se deve difundir.
Trazendo para a atual crise pandêmica, não ter em conta os processos acima descritos podem levar a uma escolha aleatória de um conjunto de objetos sem os seus devidos contextos, ou a escolha deliberada de um conjunto de objetos que marcam perspectivas pouco amadurecidas da própria instituição da relação destes para com o presente e mais adiante para com um passado que se forjará. É também necessário refletir sobre os objetos que não são escolhidos para serem preservados e ou expostos à audiência pública, pois suas ausências constroem também um discurso desse presente que se tornará passado.
As atuais ações emergenciais dos arquivos (bibliotecas e museus) não devem esquecer o paradigma do “lugar de memória”. As obras e testemunhos do presente que estão sendo incorporados ao acervo das instituições passarão a ser exemplares daquilo que se quer dizer a respeito de alguma coisa (Poulot, 2014). Portanto, a construção do patrimônio, seja ele arquivístico, biblioteconômico ou museal, perpassa tanto pelo devir histórico da sociedade, pelo interesse de diferentes grupos sociais na construção da memória social, quanto pelos interesses e metodologias da Arquivologia, Biblioteconomia, Museologia e de outras áreas do conhecimento. Não podemos esquecer disso.
Referências bibliográficas:
- CHOAY, Françoise. A Alegoria do Património. Lisboa, Ed. 70, 2000. ISBN 9789724412740
- LE GOFF, Jacques. Memória. Memória/História. Enciclopedia Einaudi. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1987.p.33-47
- LOWENTHAL, David. The past is a foreign country. Cambridge, Cambridge University Press, 1995. p.231-40. ISBN 9781139024884
- MANGUEL, Alberto. O livro da Memória. In: História da Leitura. Lisboa, Editorial Presença, 1998. pp.68-77. ISBN 9789722323390
- NORA, Pierre. Entre memória e história. In: A problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo: PUC, n. 10, p. 7-28, dez. 1993. ISSN 2176-2767
- POULOT, Dominique. Introduction. In: Patrimoine et musées: L’institution de la culture. Paris: Hachette Éducation, 2014. pp.3-8. ISBN 978-2011403391
Notas:
(1) A ideia do ensaio surgiu por conta da crise pandêmica iniciada em meados de dezembro de 2019 na China (Wuhan) e que espraiou para os demais continentes ao longo do ano de 2020 e 2021. Gerou perdas humanas e impactos na sociedade em níveis catastróficos.
(2) Os lugares são aqueles onde a memória se refugia e se cristaliza, são também os restos, são também as próprias unidades documentais, os fundos arquivísticos, as coleções de livros e de objetos. São lugares que convergem três dinâmicas: material, simbólica e funcional. Diz o autor, o arquivo, a biblioteca e o museu – seja a instituição, seja o acervo mais imediato -, são uma reminiscência material revestida de uma aura simbólica e que cumpre uma função social, de cristalização da lembrança e sua transmissão.
(3) O autor refletirá sobre o ato da leitura de livros, contudo tal percepção do ato de ler pode ser aplicada a leitura de qualquer objeto social.
(4) O autor não conceitua o termo relíquia. Originalmente é entendido como um objeto de veneração religiosa. A origem da palavra é do latim reliquiae que significa sobrevivente, resto. Contudo os dicionários de língua portuguesa, de Portugal e Brasil, tomam o termo em seu sentido genérico, coisa considerada de grande valor por ser rara ou antiga. In: Disponível em https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/reliquia/, e https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/rel%C3%ADquia. Acessados em 08 mai 2020.
(5) A análise do autor é a respeito da escrita da História, contudo achamos pertinente também no que tange à questão do patrimônio. Segundo o autor, erroneamente pensava-se que era possível garantir uma história isenta de subjetividades e de interesses de grupo. O ato de registrar os fatos, como os cronistas faziam no século XII ao XV, de criar documentos e de cuidadosamente conservá-los para que a posteridade viesse a conhecer o passado; ou ainda que o ato de descrever o passado tal qual ele era, a partir dessas fontes deixadas, como os Iluministas assim pensavam, não deixou de ter a interferência de seus posicionamentos objetivos e subjetivos.
(6) Na primeira natureza, o monumento é construído a partir de parâmetros de arte e beleza arquitetônicas e possui fim utilitário de fazer lembrar acontecimentos; e, nesse caso, o passado a ser representado pelo bem edificado foi selecionado para fins vitais da comunidade, “na medida em que pode diretamente contribuir para manter e preservar a identidade de uma comunidade, étnica ou religiosa, nacional, (…)”(CHOAY, 2000. p.16).
Editorial
realizado por: Simone Fernandes