(Archivoz) Agradecemos a sua colaboração com a Archivoz Magazine. Pode-nos contar um pouco do seu percurso profissional?
Licenciei-me em Design de comunicação na Faculdade de Belas Artes do Porto, tendo de seguida tirado uma pós-graduação em Design de equipamentos e produtos. Deste modo, exerci nos primeiros anos do meu percursos profissional a função designer de equipamentos e produtos em empresas do ramo industrial em colaboração com o Instituto de Design da Universidade do Porto e de seguida foi Art Director em agências de publicidade, trabalhando em dupla com um Copywriter, primeiro em Lisboa, depois no Porto. De seguida doutorei-me em Estudos do Património por ser a História da Arte, um campo pelo qual sempre nutri um gosto especial, desde a minha primeira formação académica. Atualmente, exerço funções nos dois campos. Sou investigador de História da Arte, publicando artigos, livros ou ministrando comunicações e desenvolvo peças no âmbito do design gráfico.
(Archivoz) Quando teve contacto com documentos de arquivo pela primeira vez?
Penso que a primeira vez em que tive necessidade de consultar documentação num arquivo terá sido em arquivos Distritais, na altura andava a fazer uma investigação familiar. Mas foi, aquando do meu curso de doutoramento, que comecei com mais necessidade e com maior regularidade a frequentar os arquivos históricos, para ler a documentação. Antes, apenas havia consultado obras publicadas em bibliotecas públicas ou privadas.
(Archivoz) Uma obra de arte pode ser considerada um documento de arquivo ou é um complemento?
Curiosa pergunta! Sem dúvida que a obra de arte “fala”, ela, em si mesma, é um documento, pois diz muito da época em que foi materializa ou pensada. No entanto, é através da documentação, por norma, grafada, que obtemos na maior parte das vezes “certezas” sobre a sua identidade, como o autor, a época ou a sua técnica e as circunstâncias que esta necessitou preencher. A documentação é, na grande maioria das obras de arte, como que o seu cartão de identidade, a sua explicação, ou razão de ser.
(Archivoz) Em que tipo de arquivos tem pesquisado? Como têm sido as suas experiências?
Tenho percorrido os dois tipos de arquivo, os púbicos e privados. Nacionais, Municipais, Distritais, Eclesiásticos, das Ordens Terceiras ou em casas particulares. Em nenhum, felizmente até hoje, tive más experiências. Por norma, tenho conseguido aceder sem grandes restrições, não tendo encontrado entraves às minhas pesquisas. Reconheço que em alguns casos as condições de conservação não são as ideais, ou que os horários de acesso são, por vezes, limitados nas horas ou bastante dependentes da disponibilidade de quem zela pelos espaços, mas não tenho deixado de fazer a investigação que pretendo por interferência desses fatores.
(Archivoz) Nestes dois últimos anos escreveu dois livros subordinados aos temas a igreja do Convento de S. Francisco do Porto e a Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco. Como se desenrolou todo o processo de investigação e que tipo de documentos encontrou?
Como já afirmei acima, a investigação começa com as evidências que as obras de arte nos podem transmitir. Perante a observação destas surgem questões e algumas respostas, mas a maioria fica por responder, pelo que há a necessidade de partir para uma investigação documental, que passa por documentos coevos, quando existentes, ou mesmo por antigas obras já publicadas que nos podem dar testemunho de factos entretanto corridos com essas obras de arte. Consultar autores credíveis é também importante. Sempre houve boa investigação, mas também “ficção” em obras escritas. Outras situações há, em que saber ouvir quem desse património cuida, nos pode dar mais pistas ou respostas a determinas questões que temos perante a obra.
A investigação passou por estar atento a tudo isto! Sem dúvida que no caso da igreja franciscana dos Terceiros a documentação existente no arquivo particular da Ordem foi fundamental para a elaboração do livro onde se reflete sobre a qualidade excepcional de todas as obras de arte do seu interior. As fontes escritas permitiram perceber que desde o seu início houve a preocupação de contratar os melhores artistas que então trabalhavam no Porto. Esta dimensão só é comprovada pela autoria que os documentos confirmam, embora a obras espelhem, por si, essa realidade. Em documentos de simples contabilidade, por questão do dispêndio de verbas, se encontram nomes de artistas ou obras realizadas. Por atas de reunião da Mesa se percebem motivos e que obras pretenderam realizar.
Por isso, fomos consultando livros de Despesa, de Atas, Cartas de Patente, onde se verifica a entrada de artistas para a Ordem, ou mesmo os contratos assinados entre a Ordem e os artistas. Houve ainda a sorte de haver algum espólio fotográfico com mais de cem anos de antiguidade. O tipo de documentos são muito diversos, podem estar agregados como um livro, como se verificou no caso dos papéis do Síndico ou do Secretário da Ordem, como podem estar de forma avulsa, é o caso de contratos com os artistas ou das Cartas de Patente. É por este facto que se torna essencial a inventariação e catalogação dos arquivos, só possível estando munidos de um bom arquivista, facilitando a pesquisa ao investigador, como foi o nosso caso, neste arquivo da Ordem Terceira, onde se investiu na contratação de uma profissional desta área para organizar e conservar o considerável espólio documental que a Ordem ainda possui.

(Archivoz) Neste momento tem um novo projeto. Pode-nos desvendar um pouco?
Tenho andado a “olhar” para uma nova área nas minhas investigações no campo da História da Arte, a azulejaria portuguesa, que tem ao longo dos séculos atravessado o tempo e as “modas”, adaptando-se constantemente às vicissitudes dos tempos. Parece andar numa eterna luta para não desaparecer. E tem conseguido! Uma expressão que se vai moldando às necessidades dos tempos, tendo atravessado praticamente todas as classes sociais. Parece estar na nossa genética, tantos são os séculos que já percorreu na nossa vivência. Estou a preparar um livro, em colaboração com outras pessoas, que pretende mostrar, mais através de imagens do que de textos, os factos desta realidade. A intenção passa por exibir as provas da evidência que afirmei acima.
Entrevistado

Pedro Vasconcelos
Doutorado em Estudos de Património pela Universidade Católica Portuguesa, Centro Regional do Porto – Escola das Artes, com a tese “Estudo da arte da talha das capelas particulares dos arciprestados de Tarouca e Lamego”, Foi professor da disciplina História Materiais e Tecnologia III (História da Arte – Talha) na Licenciatura em Arte – Conservação e Restauro da Universidade Católica Portuguesa, Escola das Artes, Foz do Douro. Porto, 2022 a 2024 e professor Assistente da disciplina História das Artes da Madeira (talha) na Licenciatura em Arte – Conservação e Restauro da Universidade Católica Portuguesa, Escola das Artes, Foz do Douro. Porto, 2010 a 2012. Palestrante em diversos seminários e colóquios onde se destaca o II Congresso Internacional das Vinhas e do Vinho (APHVIN/GEHVID), a 27 de Outubro de 2017.
Entrevistadora

Alexandra María Silva Vidal
Editor de conteúdo
Chefe de serviço del Archivo de la Venerável Ordem Terceira de S. Francisco do Porto e archivera principal en el Archivo Historico de la Iglesia Lusitana (comunión anglicana de Portugal )