Entrevista a Maria Fernanda Curado Coelho, Professora, pesquisadora e consultora em gestão de acervos audiovisuais. A apresentação da segunda e última parte do relato.
(Archivoz) Com a era digital, o que tem observado em termos de produção de documentos audiovisuais?
(Maria Fernanda Curado Coelho) É um universo novo que está exigindo novos aprendizados e muita reflexão. Os conceitos de preservação são os mesmos (conceitos fundamentais em geral mudam pouco), porém a aplicação deles está sendo revista e em muitos aspectos.A produção teve um aumento exponencial, tornando humanamente impossível catalogar, indexar e verificar a integridade das obras. Portanto, a automatização desses processos está se intensificando enormemente e gerando muito debate. Assim como o mercado tem criado softwares de verificação de integridade dos arquivos originais e suas duplicatas, vários processos precisarão ser automatizados. Da mesma forma, se aceleram as mudanças tecnológicas – software, hardware, os protocolos das plataformas de armazenamento, entre outras questões -, o que tem ocasionado a perda da capacidade de leitura de arquivos digitais em menos de uma década.
Por outro lado, a transferência de coleções digitais para as instituições custodiadoras de acervo audiovisual, ao fim e ao cabo, acaba sendo mais fácil, porque o detentor dos direitos patrimoniais pode manter uma cópia de sua obra com ele e enviar outra para o arquivo. Dessa forma, é mais fácil para o proprietário da obra realizar a distribuição sem depender das cinematecas, pois, teoricamente, a cópia e matriz são idênticas e cada qual (instituição e detentor) poderá gerir seu acervo a sua maneira.
Em termos de preservação para longo prazo, ainda há muita discussão de qual seria o melhor método para a salvaguarda dos dados para o longo prazo. De verdade, estamos aprendendo e é bem mais complicado do que preservar o analógico. No digital, por causa dessa acelerada obsolescência tecnológica, a única maneira de se perpetuar um documento audiovisual digital é através da atualização permanente das tecnologias. Quer dizer, duplicar permanentemente os documentos audiovisuais (todo o acervo digital, com seus milhares de itens), atualizando os arquivos nos novos sistemas. Atualmente acredita-se que o tempo de atualização tecnológica gira em torno de 7-10 anos. Ou seja, teoricamente, para garantir a sobrevivência de uma obra audiovisual digital, é preciso duplicá-la a cada 10 anos (no máximo), assim como obrigatoriamente se deverá adquirir novos equipamentos, programas e capacitar os técnicos operadores do sistema. Em suma, é preciso ter um investimento permanente em atualização que poucas instituições têm condições de acompanhar. O que torna a obsolescência tecnológica um dos maiores riscos de desaparecimento de documentos audiovisuais na era digital.
Enfim, neste momento, é preciso bastante critério, necessariamente humanos, para avaliações e aprofundamento de informações, como, por exemplo, definir contexto histórico e social, trabalhar com questões éticas – que são dados não mensuráveis e, portanto, não executáveis por máquinas (até o momento e mesmo pensando em IA).
(Archivoz) Para além do documento audiovisual, quais outros tipos documentais costumam acompanhar este tipo de acervo e quais são os cuidados tomados para não perder o elo entre eles?
(Fernanda Coelho) Existem vários outros objetos que acompanham a obra e que são importantes para trazer outras camadas de compreensão do documento audiovisual. Estamos falando de roteiros de filmagem, notícias de jornal, catálogos de mostra, estudos acadêmicos, entrevistas, fotos de filmagem. Assim como podemos incluir cenários, figurinos, croquis, sets de filmagem, equipamentos etc. A isso tudo se denomina o Patrimônio Audiovisual – claro, incluindo os próprios documentos audiovisuais.
Essencialmente a importância desses chamados documentos correlatos é trazer informações de contexto da obra audiovisual, inserindo-a em um contexto social de produção que inclui grupos específicos e escolas estéticas que têm uma proposta objetiva de como se manifestar nesse meio de comunicação. Os documentos correlatos evocam posturas políticas, momentos tecnológicos e uma infinidade de dados que a obra audiovisual em si não dá conta de informar, mas que fazem parte de sua estrutura.
Em geral, o título do filme é o elemento principal de conexão entre todos os itens de uma mesma obra. Por uma questão de procedimentos técnicos e pela boa conservação, cada um dos objetos (filmes, fotos, roteiros, livros) estão obrigatoriamente armazenados em espaços físicos diferentes.
Normalmente, o título é acompanhado de algum sistema de notação para diferenciar as obras com a mesma denominação. Temos, por exemplo, quatro versões de adaptação para o cinema do clássico romance “Inocência” (1915, 1932, 1848, 1983), todos com o mesmo título. No caso da Cinemateca Brasileira, cada título normatizado recebe um número de registro que diferencia as obras entre si.
(Archivoz) Até aqui falamos de preservação, gostaria de falar a respeito dos aspectos de difusão e acesso a esse material? De que maneira se relaciona conservação e difusão?
(Fernanda Coelho) Sempre houve muita discussão a esse respeito e, na minha opinião, há um falso conflito entre a ação de conservação e a ação de difusão. Na verdade, elas são complementares e se apoiam mutuamente. Nenhum profissional de conservação quer que uma obra fique guardada sem ser vista, assim como nenhum profissional de difusão quer destruir uma obra ao ser exibida – porque, claro, existe um compromisso de se manter o documento acessível para hoje e para as gerações futuras.
Pensemos um pouco sobre o assunto. O audiovisual é uma forma de expressão artística que pressupõem duplicação o tempo todo. Capta-se as imagens e sons em um suporte, duplica-se para fazer a edição, duplica-se para produzir um máster e duplica-se sempre que se fizer uma cópia de acesso, difusão … podem ser centenas de cópias. No mundo digital, além de se duplicar facilmente, cada cópia é teoricamente igual à matriz original, não implicando em perda de informação da passagem de uma geração para outra. Com isso, quero dizer que a duplicação não só é permitida (sem significar falseamento, quando bem-feita, obviamente), como é uma ferramenta fundamental para a conservação das obras audiovisuais.
O que cria o conflito é, a meu ver, a falta de recursos. Quando existe, por exemplo, apenas um único material de uma obra, que pode ser danificado e perder parte de suas imagens/sons em uma exibição. Se é um material único, e se ainda apresenta algum processo de deterioração, o acesso precisa ser muito controlado, porque qualquer dano nas imagens/sons será irrecuperável. O código de ética da Federação Internacional de Arquivos de Filmes determina que nenhum uso imediato deve colocar em risco a sobrevivência da obra para as próximas gerações.
Quer dizer que, antes de dar acesso a esse material único, é preciso restaurar e/ou duplicar o documento audiovisual, para termos uma matriz íntegra e uma cópia de acesso seguro. Acontece que tudo isso custa muito dinheiro e, geralmente, é preciso fazer escolhas dolorosas. Neste momento existe um dilema dramático, a meu ver, ou se faz uma última exibição, para dar à sociedade a chance de assistir ao filme, ou se guarda o material, na esperança de que teremos como salvar essa obra e as futuras gerações também poderão apreciá-la.
Se houvesse recursos, esse dilema não se colocaria e a conservação e a difusão estariam sempre trabalhando em comum acordo. Como isso não será realidade, então é preciso desenvolver critérios e limites de uso e não-uso baseados em questões técnicas, históricas, sociais etc.
Talvez esses critérios pudessem estar escritos em documentos públicos, como nas Políticas de Acervo. Com critérios claros e acordados institucionalmente, não há por que ter conflitos entre conservação e difusão.
(Archivoz) Sendo também uma professora na área, o que observa em termos de formação de jovens alunos em relação às problemáticas de conservação de documentos audiovisuais. Que informações deveriam ser enfatizadas a esses novos profissionais, segundo a sua percepção e experiência.
(Fernanda Coelho) Minha percepção é de que estamos muito atrasados na formação de novas gerações para preservar a memória audiovisual brasileira. Não existem cursos de formação na área, apenas cursos de curta duração; temos excelentes profissionais na área, mas que se formaram por conta própria, fazendo cursos, estágios e pesquisas aqui e no exterior; a maciça maioria dos técnicos que trabalham nos acervos audiovisuais foram formados na prática pelos técnicos da geração anterior; são poucos postos de trabalho e, em geral, não muito bem remunerados. Ou seja, só permanece na área de preservação audiovisual, os apaixonados pelo tema que aceitam condições pouco vantajosas de trabalho.
A meu ver, cada uma das atividades fundamentais do arquivo audiovisual (conservar, catalogar, documentar e difundir) é igualmente fundamental na formação do estudante. É uma cadeia indissociável.
Para haver impactos na oferta de formação de profissionais para o setor, é preciso enfatizar a importância do documento audiovisual para a sociedade. Hoje, o cinema, a televisão, as plataformas de streaming, as redes sociais (Youtube, por exemplo) são as nossas janelas para o mundo. Parte muito importante da nossa percepção de realidade está sendo formada através do audiovisual. Nenhum historiador do futuro terá condições de compreender nossa civilização se não tiver acesso ao documento audiovisual.
No momento que a sociedade compreender que a sua memória, sua possibilidade de reflexão sobre seu passado e possibilidades de planejamento de futuro, passa pelo conhecimento gravado nos suportes audiovisuais, talvez tenhamos respeito, recursos, cursos, postos de trabalho e remuneração condizente.
Tenho dúvidas se acordaremos a tempo de evitar o apagão digital, imposto pela obsolescência programada das tecnologias.
Isso não é uma opinião pessoal. Este é um alerta que toda a comunidade nacional e internacional, do meio de preservação audiovisual, tem feito há alguns anos.
Referências:
Imagem principal de Dmitry Demidov. Disponível em: https://www.pexels.com/pt-br/foto/envelhecido-curtido-maturado-antiguidade-2893694/
Entrevistada

Maria Fernanda Curado Coelho
Professora da Pós Graduação Gestão Arquivística da Informação e Dados da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo; professora e consultora autônoma em gestão de acervos audiovisuais.
Professora da pós-graduação da FESPSP, núcleo de Gestão Arquivística. Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Pós-graduada em Museologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Membro fundador da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA). Foi funcionária da Cinemateca Brasileira por trinta e seis anos e Coordenadora de Preservação entre 2000 e 2008. Oferece cursos e consultoria na área para diferentes instituições.
Entrevistador

Simone Silva Fernandes
Editor de contenidos en Archivoz Magazine
Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em História, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), possui graduação em Faculdade de Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1995) e mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2004). Atualmente é técnico documentalista da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Tem experiência nas áreas de História e das Ciências da Informação, com ênfase em História Contemporânea, em História do Brasil e em Arquivologia. Atua em Centros de Documentação e Memória, sobretudo no tratamento da informação e na difusão cultural de acervos.