(Archivoz) O seu CV é notável e bastante diversificado, do ponto de vista académico, que culminou no doutoramento em Arquitetura, na Universidade do País Basco, em Espanha, em 2012, à sua experiência docente no Ensino Superior, mas também no trabalho que tem desenvolvido em inúmeros projetos, à obra que tem publicada e à sua atividade como arquiteto, em que tem projetos distinguidos e premiados. Fale-nos um pouco do seu percurso formativo e profissional.

(José Baganha) A minha formação em Arquitectura começou no Porto, no então designado “Departamento de Arquitectura da Escola Superior de Belas Artes do Porto” (a atual FAUP). Nesse tempo – 1978 -só existiam em Portugal dois cursos de Arquitectura – os das escolas de Belas Artes do Porto e de Lisboa (a ESBAP e a ESBAL, respetivamente). A ESBAL passou por um momento muito conturbado nessa época – chegou a fechar, creio – e, como o Porto é mais próximo de Coimbra – cidade onde nasci e então vivia – decidimos (eu e os meus Pais) que a ESBAP era a melhor opção. Ainda ponderámos a escolha por um curso em Espanha, mas a minha Mãe fez muita força para que eu ficasse mais próximo do “ninho”. À escolha também não foi alheio o facto de a Escola do Porto ter já à época muito boa fama, mesmo no panorama internacional.

(Archivoz) E, portanto, iniciou a sua formação universitária no Porto?

(José Baganha) E assim entrei na ESBAP em 1978 e frequentei esta Escola durante os dois primeiros anos do curso. O 1º foi excecionalmente bom, fruto da aprendizagem que tive a sorte de receber de dois formidáveis Professores: o Joaquim Vieira – que me ensinou a usar o desenho como ferramenta de análise e pesquisa em Arquitectura; e o Mestre Fernando Távora – um Senhor, de uma cultura e de uma qualidade pedagógica superior – que nos ensinou muito de muitas coisas. O 2º ano correu muito mal, principalmente porque o professor de projeto era o Álvaro Siza Vieira – que mal pôs os pés na Escola (deve-nos ter dado duas aulas no ano inteiro!!!) – mas também porque divergia profundamente do ambiente político que então “reinava” na ESBAP – o famigerado “Espirito da Escola” – que eu não tinha, não precisava e abominava (e abomino ainda hoje tudo o que possa assemelhar-se a imposição de pensamentos únicos, dogmas ou negações de universalismo, de diversidade e de liberdade de escolha). O Ano terminou mal e, embora tenha tido aproveitamento, baixou-me bastante a média. Resolvi então (também com o apoio dos meus Pais) mudar para Lisboa, para a ESBAL.

(Archivoz) Encontrou em Lisboa uma Escola diferente. Como era essa Escola?

(José Baganha) Na Escola de Lisboa tinha havido então uma mudança profunda, uma renovação do curriculum do curso, dos professores (novas contratações) e da direção, com o objetivo de recuperar o curso e de o vir a integrar na Universidade Técnica de Lisboa – o que veio a acontecer durante o meu tempo de curso (eu fiz parte da primeira “fornada” de licenciados pela FAUL; Até então os arquitectos eram diplomados).

As coisas em Lisboa correram bastante melhor: havia então alguns bons professores e, principalmente, havia abertura para as diversas tendências que já há algum tempo vinham surgindo como reação ao esgotamento da “cartilha” do movimento Moderno – o que designamos de “Modernismo”. E isto encaixava na forma como então entendia (e ainda entendo) que deve ser a prática da Arquitectura, do Urbanismo e da Renovação Urbana.

(Archivoz) Havia, portanto, diferenças significativas entre as duas Escolas?

(José Baganha) Estes acontecimentos, ou este percurso, pode até parecer paradoxal, mas foi assim mesmo. Isto porque a tendência, digamos assim, que a Escola do Porto representava, supostamente (pelo menos no pensamento ou no modelo idealizado por um dos seus fundadores – O Professor Fernando Távora que aqui já mencionei), para o ensino e a prática da Arquitectura, se afirmaria como uma corrente de certa forma divergente do movimento Moderno, numa linha regionalista – de que a obra de Fernando Távora e Álvaro Siza (nas suas primeiras obras) eram as mais representativas.

Mas a teoria era uma coisa e a prática, pelo menos na ESBAP da época, outra. Para um jovem como eu então era e que desde cedo se interessou pela Arquitectura Tradicional, nas suas várias expressões, mas, principalmente, nos aspetos que a influência do lugar, do seu contexto, nas múltiplas vertentes, pode (e deve) ter no desenho e na obra dos edifícios e dos meios urbanos em que intervimos, a interdição dessa aprendizagem era a negação de tudo o que mais ambicionava para a minha formação como Arquitecto.

Obras como as de Quinlan Terry, Demetri Porphyrios ou Philippe Rotthier, entre outros, ou de urbanistas como Léon Krier ou François Spoerry que então descobria e com as quais me maravilhava e me inspiravam, não entravam no modelo de ensino de Arquitectura da ESBAP e, pelo contrário, eram aceites, a par de outras correntes, num ambiente de debate saudável e aberto, em Lisboa. E por isso a mudança do Porto para Lisboa foi determinante no meu percurso de formando.

(Archivoz) Concluiu a sua Licenciatura em Arquitectura em Lisboa. E o que se seguiu depois?

(José Baganha) Terminado o curso, a minha formação completou-se com a experiência que tive em empresas de construção civil, nas quais pude desenvolver trabalho como arquitecto, incorporando ensinamentos práticos e metodológicos que me foram muito úteis e contribuíram também para o meu “jeito” de fazer Arquitectura, se assim posso dizer.

O “salto” para a prática como profissional liberal aconteceu em 1993 – cerca de 10 anos depois de concluir o curso, portanto, com a abertura do meu primeiro atelier na rua da Prata, na Baixa de Lisboa.

(Archivoz) E o ensino de Arquitectura – a sua experiência como Professor Universitário – como aconteceu?

(José Baganha) O ensino veio alguns anos mais tarde, já neste século. Aconteceu um pouco por acaso (ou talvez não): Eu cultivei sempre a minha relação familiar e, em muitas ocasiões em que me deslocava a Coimbra, aproveitava a hora de almoço para estar com o meu Pai. Num desses almoços, no Hotel Astoria, por altura de 2001, talvez, não sei precisar, estava também presente um seu amigo – o Professor Sebastião Formosinho – que era à época o Diretor do Centro Regional das Beiras da Universidade Católica Portuguesa e também, salvo erro, Presidente do Concelho Científico da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Nesse almoço eu fiquei ao lado do Professor Formosinho e, naturalmente, falou-se de Arquitectura e eu contei-lhe muitas peripécias sobre esta outra realidade, tão diversa, que estava para além da Escola do Porto – que continuava a dominar (e de certa forma ainda hoje domina) o panorama nacional nestes domínios. O Professor Formosinho ficou muito espantado e interessado e quis saber mais. Disse-me também que no CRB da UCP tinham intenção de criar um curso de Arquitectura. Havia muita procura por parte dos jovens nesta época e as regiões em que o CRB se implantava ofereciam boas saídas profissionais nesta área. Combinou-se então um outro almoço para falarmos especificamente sobre esse assunto e, então, convidei também o José Cornélio da Silva – antigo colega da Faculdade com quem partilhei o Atelier durante algum tempo, nos anos 90, e que tinha tido recentemente uma experiência como professor no Centro de Estudos de Roma da Universidade de Notre Dame (E.U.A.).

Conversámos então longamente, durante uma boa parte da tarde, e nasceu ali a ideia de criar o Curso de Arquitectura do CRB, no Pólo de Viseu.

(Archivoz) Começou nesse momento a sua carreira docente universitária?

(José Baganha) Eu não estava então nada virado para as atividades académicas e tinha uma ideia – exagerada, claro! – de que esse mundo era feito de muitas intrigas e rasteiras, e isso não me interessava nada. Mas o José Cornélio da Silva decidiu levar a ideia por diante e, com o Professor Formosinho, fundaram o Curso de Viseu que durou até há relativamente pouco tempo (a crise de 2011 – que foi gravíssima para o setor da construção e obras publicas em Portugal – teve um efeito colateral no encerrar de muitos cursos de Arquitectura que então proliferavam, seguramente em excesso, aproveitando a “onda de loucura” que foram esses anos 90).

Este Curso, no início, seguia um modelo um pouco radical para a realidade nacional, muito baseado no exemplo de Notre Dame que o Zé C.S. entendia ser o mais adequado. No início, como disse, não me envolvi neste projeto, mas no ano seguinte em 2003, e ao fim de muita pressão, acabei por aceitar e iniciei as minhas atividades académicas como professor nesse curso.

(Archivoz) Foi uma boa experiência? Tem boas recordações desses tempos?

(José Baganha) O modelo de ensino que ali se seguia veio a revelar-se incompatível com as normas e conjunto de obrigações que emanavam da União Europeia e que então a Ordem dos Arquitectos controlava, em matéria de ensino universitário e o curso acabou por seguir um rumo muito diferente, igual ao que seguiam todos os outros, fiéis à “cartilha” do movimento Moderno, rejeitando quase na totalidade tudo o que se relacionasse com Tradição.

O Zé C.S. foi afastado, veio uma nova direção e eu fiquei, juntamente com o Professor Álvaro Barbosa (que ali ensinava Técnicas de Conservação e Restauro), porque entendíamos que seria bom para os alunos que o corte com o modelo anterior não fosse tao brutal como poderia ter sido de outro modo. E fiquei nessa condição, até 2012.

Globalmente, foi uma experiência positiva. Apesar de todas as vicissitudes, foi possível levar a cabo boas iniciativas e experimentar novas formas de ensinar Arquitectura, com resultados positivos.

(Archivoz) E a sua experiência docente, ficou por aí? 

(José Baganha) Não. Entretanto, por volta de 2008 (já não sei precisar) fui contactado pelo Professor Dr. Manuel Braga da Cruz – então Reitor da UCP – para criar um novo curso de Arquitectura no Pólo de Sintra dessa Universidade, onde funcionava uma faculdade de Engenharia. A ideia era oferecer um modelo de ensino que cruzasse e aproveitasse boa parte do trabalho ali desenvolvido pelas engenharias, com um cunho mais técnico, digamos assim, mas também muito orientado para as ciências do ambiente, incorporando conhecimentos que se vinham adquirindo neste domínio com um propósito de desenvolvimento sustentável aplicado também à Arquitectura.

Este modelo afigurou-se-me então como uma boa oportunidade de integrar no Ensino da Arquitectura e do Urbanismo todos os modelos, referências, experiências, que as “novas” correntes ou tendências que, em resposta à falência do modelo do movimento Moderno, se vinham afirmando cada vez mais no panorama internacional e que tardavam a ser entendidas como uma evidência adequada, necessária, também para o nosso país.

E assim foi, com a orientação do Diretor do Pólo de Sintra – o Professor Barata Marques – e a ajuda inestimável do meu colega Rui Florentino, aprovámos um Curso com um curriculum e um corpo docente invejável que começou a dar os primeiros passos em 2009, mas que não resistiu à crise de 2011 e encerrou mal tinha acabado de nascer, 3 anos depois, com grande pena minha que continuo a acreditar que aquele modelo de ensino de Arquitectura era e é adequado.

Em todos estes anos foi possível fazer muito: conferências, meetings, escolas de verão, workshops, trocas com outras universidades, etc., etc., etc., e, principalmente (tenho felizmente provas dadas desta certeza), formar profissionais com sentido critico, com a possibilidade de escolherem o seu próprio caminho, livre e conscientemente, de forma atenta aos problemas gravíssimos que hoje se colocam à Humanidade em matéria ambiental e de identidade das diversas regiões do globo, com uma diversidade tão rica quanto imensa, e que carecem de resposta, de soluções URGENTES.

(Archivoz) Foi durante esse período que concluiu o doutoramento em Arquitetura, na Universidade do País Basco?

(José Baganha) Nestas andanças completei também o meu doutoramento. Não tendo sido possível levá-lo a cabo na UCP, como inicialmente prevíamos, por não ter esta Instituição Universitária, à data, o tempo letivo em Arquitectura suficiente para o permitir, decidiu-se transferir esse processo para a Universidade do País Basco onde, com a superior orientação do Professor Javier Cenicacelaya – eminente Catedrático de Composição Arquitetónica na Faculdade de Arquitectura desta Universidade – completei essa etapa académica com a defesa da dissertação com o título “A Arquitectura Popular dos Povoados do Alentejo”, naquela Faculdade, em San-Sebastián, no ano de 2012, com a classificação máxima Apto Cum Laudae.

(Archivoz) Quais foram as principais conclusões da investigação que desenvolveu?

(José Baganha) Esta tese foi principalmente fruto da pesquisa que levei a cabo nesta Região do país que aprendi a amar muito por influência da Maria Manuel – a minha mulher – cuja Família tem origem na Região pelo lado paterno. Para isso contribuiu também o trabalho que por ali tenho desenvolvido desde já há muitos anos.

O propósito foi desenvolver uma pesquisa com fins operativos, um estudo metodológico que pudesse ser completado, desenvolvido, aperfeiçoado, por outros estudos e que, fundamentalmente, servisse de modelo a abordagens, a práticas num determinado lugar, no exercício da profissão de Arquitectura e também como um manual ou guião sobre a Arquitectura Popular da Região.

Esta tese deu depois origem a um livro que aproveita boa parte da dissertação apresentada e que a Edições 70, do Grupo Almedina, editou com o apoio de um dos meus clientes naquela Região – a Família Nabeiro (Grupo Delta).

Pelas reações que tenho tido ao livro (esgotado) parece-me que este propósito foi bem-sucedido.

(Archivoz) Relacionado com a questão anterior, em 2014 foi publicada pelas Edições 70 a obra “A Arquitectura de José Baganha”, da autoria de Javier Cenicacelaya. O que significa para si este livro, que faz uma retrospetiva dos seus projetos arquitetónicos?

(José Baganha) Anteriormente havia já publicado um outro livro com a Caledoscópio, com algumas obras de minha autoria e um texto introdutório, magnifico, do Prof. J. Cenicacelaya que resume a História da Arquitetura Tradicional em Portugal desde finais do séc. XIX (movimento Romântico) até aos nossos dias. O Prof. Cenicacelaya publicou também um livro sobre obra minha com a Almedina, no qual também colaborei – o que representou uma honra extraordinária para mim.

Tenho publicado diversos artigos em jornais e revistas especializadas nestes temas da Arquitectura e do Urbanismo e em coautoria em livros de outros autores. O mundo académico, da investigação, a divulgação da obra e o debate das ideias são, para mim, indissociáveis das demais atividades profissionais. Felizmente, vou tendo oportunidade de manter essa “chama” e o contacto com os estudantes e o mundo universitário em geral em muitas iniciativas.

(Archivoz) No seu percurso como arquiteto que obras gostaria de destacar e quais as razões dessas escolhas?

(José Baganha) No meu percurso profissional liberal, desenvolvi já muito trabalho. Desde sempre, procurei que as obras resultassem de uma síntese criativa dos diversos contextos – históricos, culturais, geográficos, etc. – com os programas dos clientes, no mais profundo respeito pelos seus desejos. Raramente é fácil, esta síntese. Há sempre muitos condicionalismos de diversas naturezas: legais ou normativas, orçamentais ou financeiras, mas, por vezes, conseguimos um resultado satisfatório, e isso dá-nos animo para continuar.

(Archivoz) Nas diversas publicações que tem feito nota-se um gosto muito forte pelo desenho…

(José Baganha) O desenho como ferramenta de análise e de pesquisa conceptual continua a ter um papel determinante no meu trabalho. Sem isso, não me interessa. Não me vejo a usar o computador como ferramenta de pesquisa. É muito útil para o desenho técnico ou representações de apresentação, mas, para mim, nada mais. A informática revolucionou muito esta profissão e simplificou extraordinariamente muitos aspetos – de rigor, de quantificação e outros de que destaco o arquivo. Ainda me lembro do espaço imenso que tínhamos de ter nos nossos ateliers para guardar o papel (embora eu ainda guarde algum).

(Archivoz) Voltando às suas obras, o que destaca mais?

(José Baganha) As obras que fiz e vou fazendo são muito diversas – desde as experiências de habitação de custos controlados nos finais dos anos 80, na época em que o desígnio nacional nestas matérias era acabar com os bairros de barracas, até aos trabalhos de reabilitação de edifícios que hoje predominam na produção de Arquitectura neste país, realizei projetos de empreendimentos habitacionais, turísticos, de apoio a atividades agrícolas, nas áreas da saúde, escolar, industrial, e de tudo um pouco. Fiz ainda algum trabalho em Moçambique, em Maputo, também.

(Archivoz) Depois de em 2011 ter recebido o Prix Européen Pour la Reconstruction de la Ville, da Foundation Philippe Rotthier, de Bruxelas, com a sua obra da “Casa do Médico de São Rafael”, em Sines, em 2017 foi-lhe atribuído o Prémio Internacional Rafael Manzano de Nova Arquitetura Tradicional, numa cerimónia realizada na Real Academia de Belas Artes de São Fernando, em Madrid, que pela primeira vez consagrou um arquiteto português. O que nos pode dizer sobre estes importantes reconhecimentos internacionais?

(José Baganha) Durante estes anos tive alguns reconhecimentos de que destaco o Prix Européen Pour la Reconstruction de la Ville, da Fundação Philippe Rotthier, de Bruxelas, em 2011, com a obra da Casa do Médico de São Rafael, em Sines, e o Prémio Rafael Manzano, em 2017, pelo conjunto da obra realizada, principalmente na região do Alentejo.

Ver a nossa obra reconhecida por Instituições tão prestigiadas como estas é uma satisfação enorme. Estou muito reconhecido aos jurados que me elegeram para esses Prémios e sinto também uma grande Honra. Mais ainda tendo em conta que o percurso que escolhi no exercício desta profissão não foi nada fácil. Efetivamente, a pesquisa das tipologias tradicionais, na composição, nos sistemas construtivos e nos materiais – com diversidades riquíssimas de região para região – é indissociável do meu trabalho como arquitecto e isso nem sempre foi muito bem visto ou compreendido por cá.

Quando falo da “falência do movimento Moderno” pretendo fundamentalmente destacar o distanciamento ou mesmo o corte que os seus autores cultivaram com esse manancial precioso que a sabedoria tradicional oferece nesta como em tantas outras matérias. Aprender com o passado é uma condição básica em qualquer atividade humana e a Arquitectura, evidentemente, não é exceção.

O corte com a História, com a Tradição, a tabula rasa, portanto, e a aposta na produção industrial em série, revelou-se desastrosa em todos os domínios da arquitectura – da construção dos edifícios aos modelos de planeamento urbano, durante o séc. XX. Um verdadeiro desastre que ainda não ultrapassamos totalmente, por incrível que pareça, apesar das evidências.

Há um aforismo atribuído a Winston Churchill que ilustra de forma clara, brilhante mesmo, este aspeto:

– “Without tradition, art is a flock of sheep without a shepherd. Without innovation it is a corpse”.

A Tradição, não é, evidentemente, incompatível com a criatividade e a inovação, mas, pelo contrário, um aspeto que lhe é intrínseco. De facto, a inovação e a criatividade mantêm vivas as tradições, de geração em geração, enriquecendo-as, aperfeiçoando-as e possibilitando uma evolução com as circunstâncias com que nos defrontamos ao longo dos tempos.

Também não posso deixar de referir que a escolha que fiz, apostando neste “caminho” ou corrente, contra a tendência dominante, me trouxe no meio nacional alguns dissabores, dificuldades mesmo. Felizmente fui encontrando colegas, Escolas e Organizações diversas noutros países, com quem fui desenvolvendo e confirmando a certeza da escolha certa. E hoje, finalmente, as coisas começam a mudar, pouco a pouco, também por cá.

(Archivoz) É presidente da direção da delegação portuguesa da International Network for Traditional Building, Architecture & Urbanism (INTBAU). O que nos pode dizer sobre a missão e a visão desta organização em termos internacionais, e sobre os objetivos da INTBAU Portugal?

(José Baganha) A INTBAU é uma rede de profissionais organizada em chapters nacionais, com sede em Londres e foi fundada pelo seu patrono, HRH o Príncipe Carlos. É uma das muitas organizações que a sua Fundação – a Prince’s Foundation – apoia, juntamente com outros mecenas, de que destaco o Driehaus Trust, do multimilionário americano recentemente desaparecido Richard Driehaus.

Como o seu acrónimo deixa antever, trata-se de uma organização que tem por objetivo apoiar e promover a construção, a Arquitectura e o urbanismo tradicionais, nas suas múltiplas expressões de região para região, por todo o mundo, do clássico ao vernáculo, sem preconceitos de estilo ou de qualquer outra natureza. Reúne já mais de 6000 membros e cerca de 30 chapters.

Temos realizado várias iniciativas neste domínio, de que destaco as Escolas de Verão – que têm tido um sucesso extraordinário. Temos algumas parcerias com Instituições portuguesas – universitárias e de outra natureza – com as quais temos desenvolvido igualmente diversas iniciativas muito interessantes e frutíferas. 

(Archivoz) Considerando o seu extraordinário percurso, tem estado, de há longos anos para cá, muito próximo do mundo dos arquivos. Como é que foi o seu primeiro contacto com esta mundo, que imagem é que nos pode apresentar dos mesmos nessa altura?

(José Baganha) O meu primeiro contacto com os arquivos de arquitectura foi nas câmaras municipais, principalmente na de Lisboa, onde a consulta aos espólios e aos processos se afigurou e afigura ainda e sempre uma ferramenta indispensável para a minha atividade, no exercício de profissional liberal.

Durante a elaboração da minha tese de doutoramento e na atividade de investigação de um modo geral, a consulta aos arquivos revelou-se também e é ainda fundamental.

(Archivoz) Considerando a primeira questão, como é que encara o futuro dos arquivos privados de arquitetos e de arquitetura em Portugal, e quais é que pensa serem os grandes desafios que os profissionais dos arquivos têm de enfrentar, ao nível da organização, preservação e comunicação da memória desses espólios?

(José Baganha) Parece-me uma tarefa hercúlea. Conheço um pouco do que fez a Casa da Arquitectura, em Matosinhos e o que tenho visto – nas suas exposições, principalmente – é muito bom. E, estou certo, é fruto de muito trabalho e dedicação. Todo este trabalho parece-me indispensável porque assegura ou contribui para assegurar a preservação da nossa memória coletiva, a nossa identidade cultural. Espero que possam continuar neste e noutros locais a assegurar a preservação desse Património valiosíssimo.

 

José Baganha

José Baganha

Arquitecto, Presidente da INTBAU Portugal.

Nasceu em Coimbra em 1960. Licenciou-se em Arquitectura na FAUTL e doutorou-se pela Universidade do Pais Basco. É sócio-gerente da “José Baganha & Arquitectos Associados, Lda.” e, entre 2002 e 2012, foi professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade Católica em Viseu e em Lisboa. José Baganha é presidente da direção da INTBAU – Portugal (delegação portuguesa da International Network for Traditional Building, Architecture & Urbanism). Membro do Colégio do Património Arquitectónico (C.P.A) da Ordem dos Arquitectos Portugueses, é autor de diversos artigos e livros sobre arquitetura e urbanismo. Na sua carreira de arquiteto recebeu algumas distinções de que se destacam. o “Prix Européen Pour la Reconstruction de la Ville”/ 2011, da “Foundation  Philippe Rotthier”, de Bruxelas e o Prémio Rafael Manzano /2017.

Imagem cedida pelo entrevistado: Estudo para casa em Quintos – Beja / Vista de Nascente

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