Entrevistámos António Ventura, Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

(ARCHIVOZ) O que é a Maçonaria, quais os seus princípios e objetivos, e o que significa ser Maçon? Penso que esta clarificação é importante porque periodicamente surge na comunicação social, numa linguagem quase sempre sensacionalista, e pejorativa, a expressão sociedades, ou associações, secretas…

(António Ventura) A Maçonaria, como a conhecemos hoje, surge em Inglaterra no início do século XVIII, embora tenha uma genealogia confusa e contraditória anterior. Era um espaço de sociabilidade novo, num país dilacerado pelas guerras civis do século anterior, no qual podiam conviver pessoas com ideias políticas e crenças religiosas diferentes. Esse espírito de tolerância, aliado à prática da solidariedade, foi um dos seus pilares ao longo dos séculos. De uma forma muito sintética, o seu principal objectivo é o aperfeiçoamento individual dos seus membros, os quais podem e devem influenciar a sociedade de uma forma positiva. Naturalmente que existe uma visão distorcida e negativa da Maçonaria, alimentada por uma certa comunicação que explora o sensacionalismo e os aspectos menos positivos, a par de um enorme desconhecimento. A ignorância impede, aqui como em qualquer caso, a formulação de juízos isentos e objectivos.

(ARCHIVOZ) Quando é que nasceu o desejo, a vontade de desenvolver investigação sobre a maçonaria portuguesa e porque razão é que isso se verificou?

(AV) Essa apetência nasceu com o meu interesse pala História Contemporânea em geral e pela História do movimento republicano em Portugal. Tendo os maçons tido um papel importante na nossa História, existem escassos estudos sobre a Maçonaria, o que constituiu um incentivo.

(ARCHIVOZ) Quem quiser fazer investigação sobre a história da maçonaria ou, por exemplo, sobre uma determinada personalidade que foi maçom, onde é que deve dirigir-se, ou seja, onde é que se encontra esta documentação. Refiro-me a arquivos e bibliotecas, na posse da maçonaria, para além das respetivas lojas. Envolvendo esta questão do acesso às fontes, o que nos pode dizer sobre a escassez das mesmas, a sua perda e dispersão?

(AV) O estudo da Maçonaria em Portugal está condicionado pela falta de fontes, resultante da vida efémera das Lojas, com a produção de escassos documentos, mas também pela sua destruição deliberada, por razões de segurança, especialmente quando a Maçonaria foi perseguida. Muitas Lojas e Obediências – federações de Lojas – apareciam e desapareciam rapidamente, os respectivos arquivos não eram preservados. A situação só conhece uma melhoria a partir de 1869, com a criação do Grande Oriente Lusitano Unido, que publicava um boletim, e na década de noventa do século XIX, com a criação de registos centrais, que existem no Arquivo do Grémio Lusitano, mas apenas referentes a essa Obediência. A proibição da Maçonaria em 1935 provocou a dispersão dos arquivos centrais e das Lojas e a destruição de muitos, por razões de segurança.

(ARCHIVOZ) Voltando um pouco atrás, depois de nos ter falado dos arquivos maçónicos, onde se encontram fontes manuscritas para a história da maçonaria em Portugal, pode destacar agora bibliotecas, onde seja possível encontrar espólios documentais da maçonaria portuguesa?

(AV) Para além do Arquivo e da Biblioteca do Grémio Lusitano, existem núcleos documenteis importantes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Histórico Militar, Biblioteca Nacional, Arquivo Geral da Universidade de Coimbra, Fundação Mário Soares, Aquivo de Ponta Delgada, alguns arquivos municipais e, naturalmente, há muita documentação em mãos de particulares.

(ARCHIVOZ) Qualquer pessoa, que não maçon, pode aceder à documentação, por exemplo, no âmbito da investigação que se encontra a efetuar numa dissertação de mestrado ou numa tese de doutoramento, ou de um livro sobre a própria maçonaria portuguesa, existente nos arquivos na posse da maçonaria, nomeadamente, no Grande Oriente Lusitano?

No que concerne ao Arquivo do Grémio Lusitano, ele já tem sido consultado por investigadores nacionais e estrangeiros, e até já foram produzidos trabalhos académicos sobre a maçonaria.

(ARCHIVOZ) E em termos de arquivos pessoais de personalidades relevantes, não só para a maçonaria, mas da história contemporânea de Portugal, desde o mundo da política, à cultura, economia, etc., é possível encontrar espólios desta natureza nos arquivos maçónicos portugueses? Existe a tradição, entre os maçons portugueses, em vida ou no final desta, de legarem os seus arquivos à Maçonaria Portuguesa?

(AV) Houve e continua a haver casos de maçons que, por sua morte, determinaram que os documentos que possuíam fossem entregues ao Grande Oriente Lusitano, ou então os respectivos familiares tomaram essa decisão.

(ARCHIVOZ) Do conhecimento profundo que possui sobre esta documentação, existente nos arquivos da Maçonaria, qual é a mais procurada pelos utilizadores, por quem e para que fins? Relacionada com esta matéria, quais são, no seu entender, as “jóias da coroa” que se encontram nos arquivos maçónicos portugueses?

(AV) Há quem procure saber se familiares seus foram maçons. É a causa mais frequente de consulta. Em relação aos estudos, normalmente estes incidem sobre a Maçonaria numa determinada localidade ou região ou sobre uma personalidade concreta. A documentação mais interessante é muito diversa, vai dos processos de iniciação aos quadros de Loja, com a relação dos seus membros, a legislação produzida, as actas de sessões, os relatórios, etc.

(ARCHIVOZ) Finalmente, no que concerne à divulgação ou comunicação da documentação existente nos arquivos da Maçonaria da mesma, tem conhecimento de existirem instrumentos de acesso à informação (catálogos, guias de fundos, índices, inventários ou roteiros) nos mesmos, em Portugal? Pensa que no futuro será possível uma aposta na implementação e desenvolvimento de um serviço de arquivo, que aposte na digitalização e disponibilização de conteúdos ao público em geral?

(AV) Em alguns arquivos públicos já existem inventários. Na Fundação Mário Soares (Casa Comum), a documentação maçónica está toda disponível on-line. Quanto aos arquivos pertencentes a entidades privadas, o futuro será esse, dependente dos recursos, que são limitados, para tal concretização.

Imagem cedida pelo entrevistado.


Entrevista realizada por: Paulo Jorge dos Mártires Batista

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